Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Matéria publicada em 04 de outubro de 2020

Segundo dados do Programa Nacional de Imunizações (PNI), nenhuma das nove vacinas obrigatórias para crianças de até um ano de idade conseguiu atingir a meta de vacinação no Brasil em 2019. Uma pesquisa encomendada e financiada pelo Ministério da Saúde pode ajudar a entender as razões para a queda da cobertura vacinal nos últimos anos. O estudo é coordenado pelo Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) em Salvador e mais três capitais: São Paulo, Goiânia e Manaus.

A pesquisa “Estudos de Cobertura Vacinal de Crianças nascidas em 2017 nas Capitais Brasileiras avalia a cobertura de todas as vacinas infantis que integram o Calendário Nacional de Vacinação. Em Salvador, a meta é coletar dados de 2 mil crianças em um prazo de 60 dias. Até o momento, cerca de 200 famílias já participaram do estudo.

“A irregularidade da cobertura vacinal tem evidenciado o ressurgimento de algumas doenças imunopreveníveis em nosso país, a exemplo do sarampo, além de aumentar o risco para outras doenças como a poliomielite (paralisia infantil), rubéola e difteria”, alerta a professora Glória Teixeira, que coordena o estudo pelo ISC.

Pesquisadores fazem uso de equipamentos de proteção durante as entrevistas

A pesquisa domiciliar abrange diversos bairros da capital baiana e é realizada por uma empresa especializa sob supervisão do Instituto. Durante as entrevistas, os pais/responsáveis respondem a um questionário sobre as vacinas já aplicadas na criança e o motivo para a ausência daquelas ainda não realizadas. Os entrevistadores também fotografam o Cartão de Vacinação para registrar os dados apurados.

O estudo foi iniciado em março deste ano, antes da pandemia de Covid-19, e retomado na semana passada, com a adoção de medidas de proteção para os profissionais e pessoas entrevistadas. Durante as visitas nas residências, todos os entrevistadores fazem uso de máscaras, protetor facial e seguem o protocolo sanitário de higienização.

Dados preocupantes

Em 2019, 85,1% das crianças brasileiras receberam a dose da BCG, vacina que protege os recém-nascidos contra a tuberculose. Foi a primeira vez, em 25 anos, que a adesão à vacina ficou abaixo da meta de 90% no Brasil. Os dados coletados são do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde.

“A queda da cobertura vacinal pode estar relacionada a diversos fatores, como dificuldade de acesso às salas de vacinação, impossibilidade dos pais ou cuidadores em buscar os serviços de saúde nos dias úteis, ou até mesmo a recusa dos responsáveis pela criança em vaciná-las”, observa a professora Glória Teixeira.

O levantamento aponta ainda que 75,7% das crianças baianas receberam a vacina no ano passado, também abaixo da meta de 90%. Em dez anos, a queda da cobertura da BCG foi de 29% na Bahia (2009-2019). Em Salvador, apenas 69,1% das crianças receberam a dose em 2019. Nos últimos dez anos, a queda na cobertura da BCG no município chega a 40% (2009-2019).

As metas também não foram alcançadas em nenhuma das demais vacinas do calendário básico (Rotavírus, Meningocócica C, Pentavalente, Pneumocócica, Poliomielite, Febre Amarela, Tríplice Viral e Hepatite A). Na Bahia e em Salvador, a adesão mais baixa foi registrada em relação à Febre Amarela: 64,8% das crianças receberam a vacina no estado; no município, 60,75%. No entanto, a meta para essa vacina é de 100% de acordo com o Ministério da Saúde.

“Até 2015, a média de cobertura das principais vacinas indicadas ao público infantil esteve acima da meta. Nos anos seguintes, esse percentual vem decrescendo gradualmente em todo o país, inclusive no estado da Bahia e no município de Salvador”, destaca Ramon Saavedra, pesquisador do ISC/UFBA.

Segundo ele, os índices de coberturas vacinais refletem, direta ou indiretamente, a adesão da população ao programa regular de vacinação, a existência de pessoas vivendo sob risco de doenças imunopreveníveis, além da efetividade dos serviços.

“Esse monitoramento representa um importante instrumento de planejamento, análise e avaliação, e deve ser implementado de forma contínua no sentido de instrumentalizar a tomada de decisão nos diferentes níveis de gestão”, conclui.