Pesquisadores de projetos sobre a efetividade da PrEP para adolescentes de populações-chave do Brasil e da África do Sul debateram avanços em evento internacional virtual

Ícaro Ramos, Ascom – Projeto PrEPara Salvador

A Profilaxia Pré-exposição ao HIV (PrEP) é um método biomédico de prevenção, em forma de um medicamento, que protege o indivíduo da infecção. O Ministério da Saúde já oferta a PrEP de forma gratuita no SUS (PrEP-SUS), desde 2018, para pessoas com idade igual ou maior de 18 anos. Segundo dados oficiais, já são 211 serviços de saúde que dispensam o medicamento e que acumularam cerca de 14 mil usuários de PrEP no país.

No Brasil, a PrEP ainda não é ofertada para os adolescentes menores de 18 anos nos serviços de saúde do SUS. Essa oferta é realizada apenas no Projeto PrEP1519, estudo demonstrativo do uso da PrEP, que tem como objetivo investigar a efetividade da PrEP para proteção do HIV entre homens que fazem sexo com outros homens, travestis e mulheres transexuais, com idade de 15 a 19 anos, nas cidades de Salvador, Belo Horizonte e São Paulo. O projeto é idealizado e executado desde 2018 por professores e pesquisadores da UFBA, UNEB, USP e UFMG.

Nos dias 29 e 30 de outubro de 2020, foram apresentados resultados parciais da pesquisa no II Encontro Anual dos Projetos PrEP Adolescentes financiados pela Unitaid (https://unitaid.org) no Brasil e África do Sul, que aconteceu de forma virtual.

O encontro contou com a presença de representantes da Unitaid, Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização Pan-Americana da Saúde (PAHO), Ministério da Saúde do Brasil, London School of Hygiene and Tropical Medicine da Inglaterra, e pesquisadores brasileiros ligados ao PrEP1519 dos sítios de Salvador, São Paulo e Belo Horizonte, além de pesquisadores da WITS University da África do Sul, que realizam um projeto similar com mulheres adolescentes e jovens de 15-24 anos (Project PrEP).

A oferta de serviços durante a pandemia e a telessaúde

Durante a pandemia de COVID-19, houve uma redução significativa da oferta e da procura pelos serviços de saúde, inclusive daqueles relacionados ao HIV, por conta das medidas de quarentena e necessidade de isolamento social. Para continuar operando, esses serviços se adaptaram, adotando novas práticas de atendimento e monitoramento das atividades.

De forma geral, as iniciativas do Brasil e da África do Sul tiveram que adaptar os serviços de oferta de PrEP, além de outros métodos de prevenção do HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis através da telemedicina, consultórios móveis, treinamento de pessoal, equipamentos de proteção individual, entre outras ações.

“O estabelecimento de novas práticas de atendimento de forma rápida e apropriada foi muito bom para nós. Intensificamos o uso de plataformas online para ligar usuários/participantes do Project PrEP aos serviços de saúde. Produzimos informações para pessoal de campo e usuários. Treinamos nosso pessoal e entregamos a medicação da PrEP em casa”, explica a Dra. Saiqa Mulick, professora da WITS University e coordenadora do Project PrEP.

No Brasil, o Projeto PrEP1519 implementou medidas de prevenção à COVID-19 que incluíram consultas por teleatendimento, transporte via aplicativo para deslocamento de participantes que necessitavam atendimento presencial e envio de kit de prevenção (preservativos, lubrificantes, pochete com auto testes de HIV e informativos de prevenção) para o domicílio do participante. “Em março deste ano, decidimos manter as clínicas do PrEP1519 em funcionamento, reconhecendo como um serviço essencial na pandemia, já que era previsto que os adolescentes não parariam a atividade sexual. Dessa forma, teleconsultas foram implementadas e vieram para ficar”, afirma a professora Dra. Inês Dourado, do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, e coordenadora do estudo em Salvador. Os dados do inquérito sobre os impactos da COVID-19 mostraram que 60% dos participantes do PrEP15 19 tiveram encontros sexuais durante a pandemia.

Esse plano de contingência para a COVID-19 revelou a importância da continuidade dos serviços de prevenção ao HIV realizados de forma virtual. A experiência foi avaliada pelos participantes de forma positiva. “Muitos adolescentes têm uma rotina que dificulta a permanência ou ida aos serviços de saúde”, reforça Prof. Alexandre Grangeiro, coordenador do estudo em São Paulo. Por isso, ele acredita ser necessário testar técnicas para simplificar o uso da PrEP, como a entrega do medicamento de maneira descentralizada.

O debate da PrEP no SUS

Um dos objetivos das pesquisas com o uso da PrEP entre adolescentes é embasar os formuladores de políticas públicas com evidências científicas sobre a efetividade da estratégia. Nesse sentido, as experiências brasileira e sul-africana são acompanhadas por especialistas na análise econômica para estudos de custo-efetividade da PrEP.

A economista Andreia Costa Santos, da London School of Hygiene and Tropical Medicine da Inglaterra, tem conduzido a pesquisa sobre custo-efetividade da PrEP entre adolescentes no Projeto PrEP1519: “Vamos avaliar o quanto a PrEP pode se tornar uma economia para o SUS em comparação com o tratamento do HIV/AIDS”, explica a pesquisadora. Essa análise levará em conta o custo médio do tratamento, do diagnóstico de HIV/aids e a relação de custo-efetividade para prevenção em cada faixa etária.

Os jovens interessados em participar do Projeto PrEP1519 podem entrar em contato pelo WhatsApp do projeto (71) 9 99640-9030 ou pelo Instagram (@preparasalvador). A assistente virtual Amanda Selfie também pode ajudar! É só chamá-la para conversar pelo site (Prep1519.org) ou pelo Facebook (@amandaselfie.bot).