Foto: Tomaz Silva - Agência Brasil

Segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) do DataSus, cerca de 260 mil casos de acidentes envolvendo animais peçonhentos foram registrados no Brasil em 2018. Um estudo liderado pelo Instituto de Saúde Coletiva da UFBA estima que 40% dos casos tenham relação com o trabalho e poderiam ser evitados se adotadas medidas simples de proteção, como o uso de botas, perneiras e luvas pelos trabalhadores, especialmente no setor da agropecuária.

A pesquisa analisou dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS entre os anos de 2007 e 2018. O levantamento aponta que as ocorrências mais comuns no período envolveram picadas de cobras, aranhas e escorpiões. Os envenenamentos por serpentes representaram a maior parte das mortes: 38,6% dos casos.

“Esses acidentes podem requerer longas hospitalizações, unidades de tratamento intensivo, deixar sequelas que exigem reabilitação prolongada e, eventualmente, incapacidade permanente para o trabalho. Portanto, além do sofrimento pessoal, representam alto custo para os serviços de saúde, principalmente para o Sistema Único de Saúde (SUS)”, explica a professora Vilma Santana, coordenadora do Programa Integrado em Saúde Ambiental e do Trabalhador (PISAT) do ISC/UFBA.

No entanto, das 58.720 internações por acidentes ofídicos (com cobras), apenas 4.905 (8,4%) foram reconhecidas e registradas como acidentes de trabalho. Mas os pesquisadores estimam que o número pode ser ainda mais expressivo levando-se em conta as subnotificações. “Esses dados ocupacionais são comumente faltantes ou inconsistentes. Esse mal preenchimento é surpreendente, já que são informações de grande relevância para ações preventivas”, alerta a professora.

Ainda segundo Vilma Santana, o número mais baixo desses registros como acidentes de trabalho pode ser atribuído à maior concentração de ocorrências entre agricultores, geralmente informais, que não possuem registro na carteira de trabalho e não são contribuintes da previdência social. “O registro de acidente de trabalho e a emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) são mais solicitados por trabalhadores formais”, pondera.

Riscos e prevenção

Picadas de serpentes representam 38,6% das mortes causadas por animais peçonhentos

Entre as internações no SUS por acidentes de trabalho decorrentes de picadas de cobras, predominavam homens (78%), pardos (54%) e com idade entre 18 e 37 anos (49%). Segundo a bióloga e professora Yukari Mise (ISC/UFBA), para entender o perfil das vítimas, é preciso considerar a maior presença de serpentes venenosas nas áreas rurais, que constituem o habitat natural desses animais. “Trabalhadores rurais, a exemplo de trabalhadores da agropecuária, são os mais expostos ao risco para ofidismo no Brasil. Nesse ramo de atividade econômica, concentram-se trabalhadores do sexo masculino, também predominantes entre esses acidentes”, destaca.

A prevenção pode ser realizada por medidas coletivas comuns, como limpeza e organização de materiais no ambiente de trabalho e isolamento das instalações de modo a evitar o acesso desses animais. Segundo Yukari Mise, o simples uso de calçados adequados poderia ter evitado 67,4% dos acidentes de trabalho com picadas de serpentes registrados em 2018. “O uso de bota antiperfuro e perneira poderia evitar grande parte desses agravos, cujas lesões mais frequentes ocorrem nos membros inferiores”, observa.

Custos para o SUS

Entre 2007 e 2018, os custos hospitalares com acidentes de trabalho envolvendo picadas de cobras totalizaram cerca de R$ 1,3 milhão para o SUS. Os gastos variaram entre as diversas regiões do país. O Norte e o Nordeste, por exemplo, apresentaram tendência de queda ao longo do tempo, atingindo em 2016-2018, 1/3 do valor registrado entre 2007 e 2009. Já a região Sudeste passou de R$92 mil no primeiro triênio para R$133 mil no último, um aumento de 44%. No Centro-Oeste, os custos subiram de R$52 mil para R$85 mil durante o mesmo período, um aumento de 65%.

“A estimativa de custos hospitalares desses acidentes com dados parciais provavelmente será menor do que a real. Estas informações podem guiar ações da Vigilância em Saúde do Trabalhador que visem fortalecer práticas de organização do trabalho mais seguras em relação aos acidentes de trabalho por picadas de serpentes e o uso de EPI pelos trabalhadores”, avalia o professor Cleber Cremonese (ISC/UFBA).

O levantamento também aponta queda de 36% no número de hospitalizações ocasionadas por acidentes de trabalho por ofidismo. As principais reduções ocorreram nas regiões Norte (-66%), Nordeste (-64%) e Sul (-50%). “Se essa tendência é verdadeira, apesar de um possível aumento do sub-registro, essa queda pode ser o resultado do crescimento do agronegócio e da mecanização agrícola, que implicam na diminuição do número de empregados. A ampliação do uso de agrotóxicos também pode contribuir para a redução do número desses animais e do seu contato com humanos”, observa Cremonese.

Para a professora Vilma Santana, é possível que as ameaças recentes aos direitos da proteção dos trabalhadores, presentes na Reforma Trabalhista de 2017, a extinção do Ministério da Previdência Social e do Trabalho e Emprego, junto ao crescimento do desemprego, tenham refletido na redução dos registros da relação desses acidentes com o trabalho. “A prevenção das hospitalizações deve ser prioridade nas ações de preservação ambiental, garantia da sustentabilidade e das condições de trabalho seguro”, conclui.

O panorama completo do estudo integra o boletim epidemiológico “Custos hospitalares dos acidentes de trabalho por picadas de serpentes no Brasil, 2007-2018”, disponível na página do Centro Colaborador da Vigilância aos Agravos à Saúde do Trabalhador (http://www.ccvisat.ufba.br/). O site também oferece a versão em vídeo do boletim, com os dados apresentados em linguagem mais dinâmica e acessível.